O
Teatro São João foi oficialmente Inaugurado a 13 de Maio de 1798. Foi o
primeiro edifício construído de raiz no Porto destinado exclusivamente à
apresentação de espetáculos.
Na noite de 11 para 12 de Abril de 1908 um incêndio destruiu completamente o edifício.
Sobre
a reconstrução do Teatro São João melhor que qualquer texto, vejam o
que noticiou a Ilustração Portuguesa em 7 de março de 1910.

Informação de Óscar Felgueiras
Crónica de Acácio Trigueiro (Sete Sílabas), in Águas-Furtadas, Jornal de Notícias de 14 de Agosto de 1932.
Da
vida primitiva do Real Teatro de São João — que é o nome completo e
verdadeiro com que foi baptizado pelos autores dos seus dias — correm
mundo vários episódios memoráveis, muitos deles comentados por insignes
caturras.
Este
velho teatro, o antigo edifício — toda a gente o sabe — desapareceu no
horror duma catástrofe, lá ficando para sempre muitos sonhos, muitas
ilusões de quem ainda hoje caminha igualmente para a derrocada final...
O
primitivo edifício, desgracioso, de aparência desagradável, concentrava
em si qualquer coisa de encanto, de enlevo que falava à nossa alma,
recordando alegrias e sorrisos que enchiam a vida de esperanças: a
turbulência, a fantasia, a ânsia viva do tempo em que os velhos e os
moços da sua época sofriam padecimentos de alma por causa de uns olhos
bonitos que a todos fitavam com ternura apaixonada...
Rezam
as crónicas, que, aí por 1849, serenado o país da convulsão política
que muito o agitou, tomou a empresa do teatro um tal António de Oliveira
Basto, por alcunha — o Cosido.
Trouxe
ele ao Porto, como prima-dona, a florentinha Elisa Gambardella, que
formou à sua roda uma corte de adoradores. Como era uma mulher de
espírito prático, soube rodear-se de indivíduos preponderantes, o que
provocou o despeito de muitos que, querendo aproximar-se dela, tiveram
de conservar-se a respeitosa distância. E tais despeitos não tardaram
muito a manifestar-se com a publicidade escandalosa dum celebre "Diálogo
entre um parvalheira e um pulha no Teatro de S. João do Porto",
distribuído na sala de espectáculos, o qual reza assim:
"— Diz-me vossa senhoria
Que mulher é que ali 'stá,
Que amostras de vozes dá,
Esfarrapando a harmonia?...
— O senhor não o sabia?...
— É uma tal de Gambardella...
— E que suciata é aquela
Que a aplaude loucamente?...
— Pois não sabe?... aquela gente
É a que toma chá com ela!..."
A
vingança produziu uns efeitos de arromba. De tal modo a versalhada
beliscou os lamechas dos seus adoradores, que um tal Noronha, apanhando
um sujeito que rabiscava coisas no "Braz Tisana", presumido autor do
diálogo insolente, encheu-o de murros e bofetadas.
O
pobre do Cosido passou a ser frito por desgostos de toda a ordem e de
todos os tamanhos. Abandonou a empresa ao empresário Lombardi, que,
prometendo maravilhas, trouxe uma companhia medíocre, com as mesmas
mirabolâncias de reclamo das muitas que ainda hoje, às vezes, por cá
aparecem...
Mas
seguiram-se depois épocas brilhantes, aguerridas, apaixonadas e de
grande turbulência, com muitos episódios galantes, urdidos à volta da
família dos cómicos, com ceias e orgias na Ponte da Pedra, uma das quais
perturbada por Camilo insolente e agressivo: pegando numa taça, o
ilustre romancista brindou ironicamente — Pela outra! — pela que não
assistia ao festim deslumbrante...
Vieram
depois as noites agitadas das representações do Eurico, do Miguel
Ângelo, com a guarda municipal evacuando a plateia, às coronhadas;
senhoras nos camarotes com fanicos, o Barnabé, tremendo, a partir
cadeiras; o Gaspar do Covo a sorrir para os camarotes, sereno e
impassível no meio daquela desordem bruta...
Com
uma célebre cantora, a Bernardoni, a mesma coisa. Por causa dessa, até
chegou a haver um duelo, na Arca d'Água, a murro, com testemunhas que
batiam palmas para animar os combates. O que então se fez, se inventou,
se riu! Que mocidade, que rapaziada a desses belos tempos e que apagadas
tristezas as de hoje!
Tudo
isto se passou no lindo teatro que um incêndio destruiu, e que o
esforço dum homem ilustre — Francisco de Almada — tanto engrandeceu para
maior brilho e realce da cidade tripeira.
Mais
tarde, já não eram, porém, as antigas manifestações a verso e a murro.
Era a troça pegada, irónica, chalaceante. Um excelente rapaz, oficial do
exército e crítico musical, foi, em certa noite, alvo das graçolas da
plateia. Mas do atrevimento se desforrou, mandando distribuir pela sala,
pelos camarotes e corredores, uma picaresca versalhada, da qual
recortamos duas estrambóticas quadras:
"Vou cantar-te, prima-dona
Já que não te posso comer;
Sei que quando queres palmas
Dás um osso a roer...
A prima-dona tem nome
E feito grandes apostas
Em como o Kos nada faz
Só para livrar-lhe as costas."
E muitas outras perlengas, que os nossos pais e avós aproveitavam à maravilha, para desopilação da figadeira...

