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06/02/2016

Estação de Comboios Saboya- Monchique


Durante muitas décadas Monchique esteve ligado a esta estação por via terrestre. Talvez por isso a mesma ostentasse na sua parede lateral a inscrição Saboya-Monchique. Havia uma carreira feita por autocarros de passageiros da empresa Castelo & Caçorino que fazia a ligação, pelo menos uma vez por dia, de todos os utentes que necessitavam deslocar-se essencialmente a Lisboa e também a outras localidades.

Era também por esta estação que a maioria das mercadorias com destino a Monchique aqui ficava retida. Depois eram transportadas por uma empresa de transporte de mercadorias, a única legalizada para este tipo de transportes no concelho, onde tinha a sua sede na Calçada de Santo António, onde era aí que as mesmas, na maioria das vezes, eram levantadas pelos seus destinatários.

Durante muitos anos além dos civis que utilizavam esta carreira eram os mancebos que marcavam presença quando iam iniciar as suas lides militares para cumprir o serviço militar obrigatório. Recebiam as guias de marcha para neste percurso ir apanhar o comboio para ir assentar praça nos vários quartéis espalhados pelo País. Depois já na qualidade de recrutas e mais tarde militares voltavam a fazer o mesmo percurso sempre que podiam vir passar o fim-de-semana a casa até serem mobilizados, na maioria das vezes, para a guerra nas províncias Ultramarinas.

Com a chegada do 25 de Abril, onde as condições de vida melhoraram substancialmente e onde passou a haver concorrência de autocarros com ligação directa a Lisboa, via Portimão, e com o fim do serviço militar obrigatório em virtude de ter acabado as guerras no ultramar, este percurso deixou de ser minimamente rentável para a empresa que o explorava, terminando assim, sem dramas, uma carreira que tantas histórias deixaram para contar a quem nela circulou tantos anos.

 
Armindo Jorge,
em

18/11/2014

O Caminho de Ferro no Algarve


Trinta e três anos depois da inauguração do primeiro troço de caminho de ferro em Portugal (de Lisboa ao Carregado) e 25 após a chegada a Beja, os silvos da locomotiva ouviam-se enfim no Algarve.
Apesar de a primeira viagem direta entre Barreiro e Faro ter ocorrido a 21 de fevereiro de 1889, seriam necessários mais quatro meses para a abertura efetiva da linha. Isso aconteceu a 1 de Julho de 1889.

Embora a decisão tivesse sido tomada nas sessões parlamentares de 25 e 26 de junho de 1862, e a abertura à exploração tivesse sido fixada, poucos anos depois, para 1 janeiro de 1869, a construção de tão desejado melhoramento dilatar-se-ia no tempo.
Se é verdade que todo o trabalho era braçal (só nas imediações de S. Bartolomeu de Messines trabalhavam, em fevereiro de 1876, cerca de 600 pessoas), sem recurso a maquinaria (tão-somente a pólvora, picaretas, pás, alcofas, etc.), e que era necessário escavar outeiros e construir aterros, já para não falar nas obras de arte ou nos edifícios para as estações ou passagens de nível, não é menos verdade que esta linha raras vezes foi considerada prioritária no contexto nacional.
As paralisações frequentes, aliadas às diferentes secções em que decorriam as obras, provocavam quase sempre situações caricatas. O lanço entre Faro e Boliqueime foi dos primeiros a ficar concluído, mas seriam necessários muitos anos até que, por ele, circulasse alguma composição.
No entanto, em 1875, um terrível acontecimento veio dar um incremento aos trabalhos: a seca. As Câmaras Municipais da região, face ao flagelo da fome que afetava os algarvios, pressionaram o governo para a abertura das obras, não só na ferrovia, como nas estradas.
De tal forma que os lanços da linha entre a Portela dos Termos e as Silveiras (São Marcos da Serra), e entre este ponto e Boliqueime, tinham o leito praticamente concluído em dezembro de 1876. Em contrapartida, entre Casével (Castro Verde) e a Portela dos Termos, muito havia a fazer. Em 1878, nova seca se faz sentir na região e as obras sofrem novo impulso.
A 3 de junho de 1888 abria à exploração o troço de Casével a Amoreiras/Odemira.
Oito meses depois, realizava-se a primeira viagem técnica entre o Barreiro e Faro. Só faltava agora a inauguração. Mas se a construção da via teve, como vimos, parto difícil, uma outra contrariedade esperava os algarvios – o desprezo.
Entre o fim de fevereiro e junho de 1889, vários periódicos lisboetas noticiaram amiúde a presença de individualidades na inauguração do caminho de ferro do Algarve, fosse a família real, que sempre participara nestes momentos, ou membros do governo.
Porém, agendado o dia festivo, 1 de julho, uma segunda-feira, todos declinaram o convite, e uma frase ficou célebre: “Nem Majestades, nem Altezas, nem ministros”.
Para alguns círculos representativos do Algarve, a sua ausência foi considerada como “a maior humilhação que os altos poderes do Estado podiam ter infligido aos brios de um povo que se regia por instituições constitucionais”.
Mas os algarvios não desanimaram e organizaram durante três dias uma manifestação de regozijo, celebrando em Faro o início da exploração do seu caminho de ferro.