Já
foi a Ermida do Senhor do Espinheiro (porque está na antiga Praia do
Espinheiro do lugar de Matosinhos do concelho e Julgado de Bouças) e do
Senhor do Padrão.

Localizado no sítio do Espinheiro junto ao atual Molhe Sul do porto de Leixões, o local onde,
diz a lenda, terá dado à costa a 03/05/124, terça-feira (ano 164 da Era
Romana), uma das 5 imagens de Jesus Cristo crucificado que tinham sido
esculpidas em madeira da Judeia por Nicodemos (fariseu convertido a
discípulo de Jesus, que conviveu com ele nos seus últimos dias) depois
de este ter ajudado José de Arimateia a descer da Cruz e a embalsamar o
corpo de Jesus Cristo e ter ficado com o Santo Sudário (ligaduras de
linho perfumadas de mirra e aloés, que José de Arimateia colocou sobre o
corpo de Cristo antes de ser sepultado, o qual possibilitou a impressão
da imagem de Jesus).
É um alpendre edificado em granito
com 4 arcos de volta perfeita abertos nas suas 4 fachadas que estão
emoldurados por pilares e rematados no fecho por cartela com coroa (um
frontão semicircular com fogaréu coroa cada uma destas faces),
albergando um crucifixo ladeado pelos 4 Evangelistas (imagens pintadas
de 4 Apóstolos de Jesus Cristo) e apresentando características barrocas
que o leva a ser identificado como sendo do séc. XVIII.
Ao
centro, sobre um soco de 3 degraus, assenta o cruzeiro de braços
quadrados, revestido a azulejos policromados numa das faces, em que se
representa a imagem de Cristo; defronte, foi edificada uma mesa de altar, também forrada com painéis de azulejo simulando tecido.
Junto
à estrutura do alpendre, num nível mais baixo do terreno, foi erigido
um fontanário de espaldar em granito, protegido por guarda de ferro, que
recria o modelo estrutural e decorativo do padrão, decorado com
azulejos.
Na base da cruz deste verdadeiro padrão da fé,
inscreve-se a data de 162 (124 na Era Cristã) que corresponderia,
segundo a lenda, ao achado da imagem incompleta (sem o braço esquerdo); no
lado oposto, o número 50 refere-se ao espaço de tempo que, segundo a
lenda, demorou a ser encontrado o braço que faltava (a 03/05/174, outra
terça-feira) por uma idosa que andara a apanhar gavetos no Areal do
Prado para acender a sua lareira.
No seu interior, destaca-se, ao centro, a imagem do Bom Jesus sobre um altar de azulejos; nas suas 4 faces, foram gravados no granito textos que foram sendo apagados ao longo do tempo:
no lado Norte,
'HEC (haec) VERA / PISCINA EST / LAVAMIMI'
('Esta piscina é verdadeira. Lavai-vos'),
no lado Oeste,
'HABETO (habete) FIDEM / MAIORA HIS / VIDEBITIS' ('Tende fé. Vereis coisas importantes'),
no lado Sul,
'HAVEAS /AQVAS / DE FONTIBVS / SALVATORIS'
('Que tenhas águas de fontes do Salvador')
e no lado Leste,
'OMNES / SITIENTES / VINITE (Venite) ADA (O) VAS 1726' ('Todos Vós que tendes sede, (vinde) Adão (?) Vas 1726'.
O surgimento de uma fonte de água doce no local em 1733, então reputado
como 'miraculoso', deu origem à construção mais pequena que pode ser
observada junto ao zimbório.
No ano de 1755 para 1756, pagou-se 11$785 reis ao mestre ferreiro João Baptista pela obra da porta da fonte do Senhor do Padrão; em
1790, pagou-se 1$100 reis por uma fechadura e chapa para a fonte do
Senhor do Padrão e 12$800 reis a um pintor pelo retoque dos 4
Evangelistas; em 1794, pagou-se 33$853 reis por uma Imagem de Azulejo para o Padrão e pelo frete do seu transporte de Lisboa para o Porto; em 1797, pagou-se 12$605 reis pelo azulejo da Imagem do Senhor do Padrão; em
1798, pagou-se 2$605 reis para assentar azulejo da Cruz do Senhor do
Padrão e 108$290 reis por fitas para medidas da Igreja e do Padrão; em 1800, pagou-se 15$405 reis por mais uma pintura dos 4 Evangelistas; em
1812, pagou-se 12$575 reis a António José Vieira por novos azulejos
pintados (Os azulejos pintados com a efígie do Bom Jesus, aplicados na
Cruz, tiveram de ser substituídos, total e, por ventura, também
parcialmente, atendendo a que foram feitas 2 encomendas de azulejos
separadas por 3 anos, sendo a 2.ª encomenda de valor muito inferior ao
da 1.ª).
Na ata da reunião da Mesa Administrativa da
Santa Casa da Misericórdia do Bom Jesus de Bouças, a 10/081884,
encontra-se mencionada a quantia de 105 mil e 103 reis para a vedação da
Memória (Senhor do Padrão); na ata de 10/03/1907, lê-se
que, na respetiva reunião da Mesa, o Juiz propôs um certo n.º de
medidas que foram aprovadas por unanimidade, a impor ao encarregado de
zelar pela conservação do Senhor do Padrão, alojado na casa contígua,
gratuitamente, em troca dessa obrigação (uma delas dizia respeito à água
da fonte do Monumento, a qual só podia ser fornecida mediante uma
esmola, fosse qual fosse a sua importância, e que tinha de ser
introduzida obrigatoriamente na respetiva caixa ali existente e o
incumprimento de qualquer uma dessas medidas seria igual a despedimento
do zelador do Senhor do Padrão).
Este imóvel foi classificado como Monumento Nacional pelo art. 1.º do Decreto-Lei n.º 129/77, de 29 de setembro.