23/12/2015

Natal 2015


Uma das mais antigas representações da Natividade, proveniente de Naxos (Grécia) e datada de inícios do século IV d.C. e com o pormenor interessante de as árvores (pinheiro e carvalho) ocuparem os lugares habituais de Maria e José

21/12/2015

Adeste Fideles

Esclarecimento sobre a autoria desta música de Natal, por Rui Vieira Nery: 

Todos os anos, mais ou menos por esta altura, há uma alma patriótica que desenterra não se sabe bem de onde, com a melhor das intenções o disparate musicológico absoluto da atribuição do conhecido hino de Natal "Adeste fideles" ao nosso Rei D. João IV, o que desperta logo uma corrente interminável de "likes" de orgulho nacional. Ano sim, ano não, a irritação profissional pela perpetuação desta atoarda faz-me tentar desmentir como posso o boato (tanto mais que a figura de D. João IV, sobre quem trabalho há quase quarenta anos, nos deve merecer a todos o maior respeito pelo seu papel inimitável de protector da Música e dos músicos portugueses do seu tempo, e não precisa para tal desta atribuição abusiva de paternidade musical). Aqui fica, pois, mais uma vez, o devido esclarecimento, embora sabendo que estarei provavelmente a pregar no deserto, porque a mística do mito tem sempre mais força do que qualquer argumento racional.


1) O “Adeste fideles” é uma obra composta em harmonia funcional inteiramente tonal, com acompanhamento de baixo contínuo, num estilo absolutamente incompatível com a prática musical do tempo de D. João IV, que morreu em 1656. Atribui-lo ao nosso Rei ou a qualquer compositor europeu da sua geração seria sensivelmente o mesmo disparate do que dizer que Bach poderia ter escrito da “Nona Sinfonia” de Beethoven ou que Brahms poderia ter sido o autor da “Sagração da Primavera”…
2) Como se isto não bastasse, o próprio texto “Adeste fideles” não consta de quaisquer livros litúrgicos antes do século XVIII, até à sua edição por John Francis Wade no início da década de 1740, embora possa ter sido baseado, remotamente, num texto medieval.

Estes dois argumentos deveriam ser suficientes para qualquer pessoa que saiba alguma coisa de Música do século XVII. Mas deve referir-se ainda que:
 

3) É absolutamente falso que existam em Vila Viçosa quaisquer manuscritos do início do século XVII – ou de qualquer outro período, por sinal, até pelo menos meados do século XX – com esta obra. Trata-se de uma invenção surrealista de quem escreveu o artigo “Adeste fideles” da Wikipedia portuguesa.
4) Nenhuma das várias fontes contemporâneas de D. João IV que enumeram detalhadamente as suas composições refere que ele tenha composto qualquer “Adeste fideles” (o que em qualquer caso não poderia ter feito porque o texto ainda não existia). E mesmo quando no final do século XVIII começou a haver a moda de atribuir arbitrariamente ao Rei obras anónimas, como o “Crux fidelis” ou o “Adjuva nos”, nunca o “Adeste fideles” foi sequer incluído nestas falsas atribuições.

De onde nasceu então o mito da atribuição a D. João IV? É simples:

5) Ao “Adeste fideles” foi dado o nome de “Portuguese Hymn” em várias publicações inglesas porque esta composição era cantada na capela da Embaixada de Portugal em Londres, que até à legalização do culto católico em Inglaterra, com a promulgação do Roman Catholic Relief Act de 1829, era um dos únicos locais em que ele podia ser celebrado em território britânico. Vincent Novello (1781–1861), que foi a partir de 1797 Mestre de Capela e Organista da Capela Portuguesa, publicou em 1811 uma colectânea intitulada A Collection of Sacred Music, as Performed at the Royal Portuguese Chapel in London que teve depois grande influência na constituição de um repertório católico inglês, e como “Adeste fideles” estava nela incluído passou a ser conhecido como o “Hino Português” e assim se foi divulgando no mundo católico internacional. Mais tarde seria incluído, numa versão “pseudo-gregoriana”, no próprio “Liber Usualis” editado na sequência da reforma litúrgica de Pio X, no início do século XX.
6) A atribuição da obra a D. João IV é, pois, uma fantasia romântica sem qualquer fundamento, cuja origem é hoje impossível de datar com precisão, mas que não é sustentada por nenhum – absolutamente nenhum – dos autores que estudaram a vida e obra de D. João IV, de Joaquim de Vasconcelos e Ernesto Vieira a Mário de Sampaio Ribeiro e Luís de Freitas Branco, o que sugere que tenha surgido já em meados do século XX.

Quem é então o autor do “Adeste fideles”?

7) Não sabemos, pura e simplesmente, mas a natureza da própria música indica que não poderá ter sido composto antes do último quarto do século XVII e mais provavelmente já em inícios do século XVIII. Vincent Novello, quando publica o seu arranjo da obra, atribui-a a John Reading, organista do Winchester College que morreu em 1692, mas a primeira versão escrita que se conhece é de John Francis Wade (1711 – 1786), e sendo Reading protestante e Wade um católico assumido, que se exilou inclusive no Continente por lealdade à causa do Pretendente Stuart, seria mais natural que a Capela da Embaixada Portuguesa adoptasse uma obra sua do que uma da composição de um anglicano.
 
 
 

30/11/2015

Severa, a Rainha do Fado

Maria Severa Onofriana, celebrizou-se como "Severa", tornada o ícone de primeira fadista pelos seus amores e pelos fados que cantava, tocava e dançava, no bairro da Mouraria.
Nasceu em Lisboa em 1820 e morreu de tuberculose e apoplética a 30 de Novembro de 1846, num miserável bordel da Rua do Capelão, na Mouraria (freguesia do Socorro), tendo sido sepultada no Cemitério do Alto de São João, numa vala comum, sem caixão.
Consta que as suas últimas palavras terão sido: “Morro, sem nunca ter vivido” — tinha apenas 26 anos.

Dina Teresa em A Severa, o nosso primeiro filme sonoro (1931)


A actriz Palmira Torres, primeira interprete de " A Severa"

Napoleão reina em Portugal

A 30 de novembro de 1807 o exército francês, sob o comando do General Junot, ocupa Lisboa e assume a presidência do conselho de Governo. 
Junot determina que “A Casa de Bragança acabou de reinar em Portugal” e que o Reino passara a ser administrado por Napoleão.




Arquivo Nacional da Torre do Tombo

14/11/2015

Celeiro de São Francisco





Erigido na primeira metade do século XVIII, num terreiro então denominado Horta dos Cães, que se situava entre a cerca muralhada construída em torno de Faro no século XVII e a cerca do Convento de São Francisco, este edifício é a única edificação civil de planta octogonal existente no Algarve.
Foi mandado construir pelo Desembargador Veríssimo de Mendonça Manuel, que ao longo de toda a primeira metade da centúria de Setecentos patrocinou a construção de diversas obras em Faro, nomeadamente o conjunto da Quinta do Ourives, a Casa das Figuras e o Solar do Capitão-mor.
O piso térreo é rasgado por oito óculos, aos quais correspondem no interior os panos da abóbada. Numa das faces foi rasgado o portal principal de volta perfeita, sobrepujado por um brasão de armas em massa, integrado em conjunto de gosto rocaille, pertencente a Manuel Mascarenhas de Figueiredo Manuel, neto do Desembargador, que terá completado a obra iniciada pelo avô.
Desta segunda campanha de obras, ordenada entre 1761 e 1789, terão resultado também as interessantes figuras em massa que ladeiam o portal principal "(...). À direita está colocado um homem coberto por pele de leão, com uma maça e a hidra de Lena, cuja legenda identifica claramente como o herói mitológico HÉRCULES. À esquerda, um índio gigante que luta com um crocodilo é acompanhado pela inscrição "CABO DE BOA ESPERANÇA ADAMASTOR".

                                                                                                                Catarina Oliveira
                                                                                             DIDA/IGESPAR/ Abril de 2008

10/11/2015

Matesinus, Matesinis e Matusini

Em 1258, nas Inquirições mandadas efetuar por D. Afonso lll, é referenciada uma pequena povoação rústica junto à foz do rio Leça a norte do Porto, terra de pescadores, salineiros e agricultores, com as designações de Matusiny e Matusini (estava a formar-se, a partir do galaico-português, a língua portuguesa) e, em documentos de 1032 e 1258, aparece designada esta povoação como Matesinus, Matesinis e Matusini.
Durante muito tempo, foi uma simples povoação, e depois um lugar pertencente em 1258 à freguesia de Sandim de Bouças que, no séc. XVI ou XVII, passou a simples aldeia da freguesia do Sam Salvador de Mathozinhos que já tinha 600 fogos ou casas no séc. XVI quando foi dado por D. Manoel I o Foral ao concelho de Sam Salvador de Bouças (o atual Sendim, onde fica o cemitério n.º 2 de Matosinhos); povoação ou lugar, pertenceu durante séculos ao Julgado de Bouças sediado em Sandim por causa de estar situado muito perto o Mosteiro de Bouças (a área deste Julgado do Termo do Porto que também superintendia nos Julgados da Maia e de Penafiel, estendeu-se também durante séculos desde a atual Leça de Palmeira até à foz do rio Douro passando mais ou menos pelas atuais Guifões e Santa Cruz do Bispo, sem incluir o Couto de Leça do Balio e a atual S. Mamede de Infesta - ainda em 1736, as freguesias de S. Martinho de Aldoar com os lugares de Passos e da Villarinha, entre outros, de Ramalde e de Sam Miguel de Nevogilde pertenciam ao Julgado de Bouças e continuaram a pertencer ao concelho de Bouças do séc. XIX até 1895.
A vila de Matosinhos, constituída pelas freguesias do S. Salvador de Bouças de Matosinhos e de S. Miguel da Palmeira, foi criada em 1853.
Em 1867, foi criado o concelho de Matosinhos, voltando à organização anterior 20 dias depois!
Em 1909, foi dirigido um pedido ao governo para ser criado em definitivo o concelho de Matosinhos, por este lugar ser mais importante que o de Bouças: o concelho de Matosinhos foi criado definitivamente a 06/05/1909, com sede em Matosinhos, há pouco mais de 100 anos, tendo sucedido ao concelho de Bouças que, por sua vez, sucedeu ao Julgado de Bouças.