Traineira SANTA ISABEL já encalhada junto da praia, pronta a ser varada no areal, em fins de dezembro de 1961.
A
23/12/1961, as traineiras de pesca da sardinha da praça de Matosinhos
fundearam pela 1.ª vez na futura Doca n.º 2 do porto de Leixões, ainda
não concluída, por autorização especial do capitão do porto, permitindo
assim que os pescadores passassem com a família a noite de Natal (o que
para muitos não seria possível, se as embarcações ficassem ancoradas no
lugar habitual, já que devido ao mau tempo, teria que ser reforçado
pessoal de quarto).
Afinal, esta nobre intenção veio
indiretamente originar que cerca de uma centena de traineiras ficassem
«aprisionadas» na futura Doca n.º 2 até à tarde de 26/12/1961, do que
não terão resultado prejuízos de maior pois o temporal impediria, de
qualquer maneira, a saída das embarcações; e, mesmo que uma ou outra se
fizesse ao mar, a maré não devia ser compensadora.
Cerca
das 15:00 de 25/12/1961, quando as traineiras procuravam sair para a
Doca n.º 1 a caminho dos seus ancoradouros junto da rampa do Pescado no
Anteporto, verificou-se um acidente:a traineira
SANTA ISABEL, devido à forte ressaca, foi atirada com violência para
cima da estacaria de aço da ensecadeira, que ainda dividia as 2 docas
por debaixo da Ponte Móvel de Leixões e, rodopiando, ficou encalhada de
proa para os Céus e a popa completamente mergulhada na água; a
bordo, encontravam-se apenas 6 dos 49 homens da tripulação, que foram
atirados à água e nadaram para terra tendo apanhado um susto e um banho
forçado (David de Jesus Lapa, Mário Augusto da Fonseca, José Cândido de
Oliveira Lopes, Manuel Faria Novo e Gonçalo Calheiro Braga).
Quando
se deu este desastre, já tinham saído a estreita «barra» - que
apresenta uma passagem livre de obstáculos com escassos 15 m - cerca de
20 traineiras que tinham enfrentado grandes dificuldades devido à força
do mar; fechando a abertura que liga as 2 docas, a SANTA ISABEL obrigou a forçada inatividade uma centena de traineiras;
No
dia seguinte ao desastre, pessoal da Administração dos Portos do Douro e
Leixões, inclusivamente mergulhadores, procederam a diversos trabalhos
para 'safar' a SANTA ISABEL e libertar as outras embarcações que, cerca
das 18h00 de 26/12/1961, puderam deixar a Doca n.º 2 e fundearem na
Bacia ou Anteporto (apenas a traineira MONTE SINAI ficou ligeiramente
pousada sobre uma das estacas, mas bastou um pequeno puxão de um
rebocador que andava próximo para a 'safar').
A
SANTA ISABEL, construída em 1959, pertencia a Inocêncio Pinto Soares
residente na R. de Gago Coutinho, 235, em Matosinhos, e tinha como
mestre Mário de Oliveira Lopes morador na R. de Silva Pinheiro, na mesma
freguesia.
Durante a tarde e parte da noite de
25/12/1961, tripulantes e trabalhadores empregados do armador da
traineira procuraram retirar de lá alguns apetrechos de pesca.Principalmente
a 25/12/1961 por ter sido feriado, e também a 26/12/1961, milhares de
pessoas estiveram no local a ver a traineira de proa apontada ao céu,
enchendo a ponte móvel, sobre cujos varandins ficavam debruçados longo
tempo fazendo os seus comentários.
Pelas 07h30 de
20/01/1961 (ou 19/01?), acercaram-se da traineira SANTA ISABEL 2
batelões que suspenderam o barco à proa, serviço este realizado na maré
baixa, aguardando-se, depois, a preia-mar que se verificou às 14:27. Na
saída, colaborou também o batelão MARIETA cuja função consistiu em que
fosse permitida a posição horizontal com a elevação à superfície da ré,
visto à saída daquele ponto se notar a existência de pedregulhos e
dificultar os trabalhos, os quais foram superiormente dirigidos pelo
comandante Lourenço Mateus, chefe dos serviços marítimos da A.P.D.L.. Após
a traineira SANTA ISABEL ter tomado a posição desejada, o rebocador
VANDOMA, também da A.P.D.L., rebocou o barco sinistrado e os outros 3
que lhe serviam de apoio para a Bacia onde a traineira ficou varada no
areal junto ao molhe Norte aguardando as reparações provisórias para
entrar de novo ao serviço.